Home Data de criação : 08/01/19 Última atualização : 09/04/25 04:43 / 5 Artigos publicados

TEATRO DE BONECOS NA EDUCAÇÃO  escrito em sábado 25 abril 2009 04:43

bonecos, educação, teatro

 Do Anteparo à Percepção de Si e do Mundo

          Desde 2004, com a implantação da última reforma curricular na Escola de Teatro da Ufba, foi incluído, por enquanto apenas no currículo da Licenciatura, o campo do Teatro de Animação, através de quatro componentes: Teatro de Formas Animadas I, II, III e IV, com duas horas semanais ao longo de quatro semestres letivos. Fui convidada a ministrar esses componentes e dessa iniciativa ampliou-se um campo de pesquisa-extensão já na graduação, através do Núcleo de Plástica e Cena, que coordeno, e que tem gerado produtos significativos, como o texto dramático do espetáculo Ciranda de Estórias, em vias de publicação em 2008, pelos Cadernos do Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas. Este texto dramático, uma construção coletiva de poesia e conhecimento, motivado como didática e práxis pedagógica de dezoito alunos, integrou vários componentes do currículo, além, é claro, de Teatro de Formas Animadas. Foi apresentado com debates e outras atividades educativas para público infanto-juvenil e educadores, durante o ano de 2007. Um outro produto, também ligado à iniciação de pesquisadores e à extensão universitária e ainda em andamento é o espetáculo Fragmento, animação com bonecos de manipulação direta e adaptação de um texto de Samuel Beckett. Pesquisas iniciais de Genifer Dimpério e Laura Franco, além das duas, atualmente participam dele comigo em suas diversas funções: Enjolras Matos, Rubenval Menezes, Bira Azevedo, Eliete Teles, Emiliano Maximus, Ricardo dos Santos e Lico Santana.

                  Essa inserção na grade curricular da universidade, no meu entender, tem colaborado efetivamente, junto com outros fatores, para mudar a qualidade da produção e do conhecimento sobre este campo na cidade de Salvador, ao mesmo tempo em que instaura um interesse renovado pela pesquisa e pela extensão, com formação de artistas e arte educadores interessados pelo estudo dessas práticas na graduação e na pós-graduação em teatro. Como exemplo cito as pesquisas de Urânia Maia e Diva Luiz da Silva, cujos mestrados concluídos na Escola de Teatro, se vincularam diretamente a esse campo. E, na graduação, da primeira turma da Licenciatura formada por este novo formato curricular, cito as práticas e os trabalhos monográficos para conclusão de curso, de Eliete Teles dos Santos, de Emiliano Souza de Jesus e de Rubenval Lopes Menezes, entre outros, pelo vínculo também direto com o campo do Teatro da Animação. Os trabalhos destes alunos, da pós-graduação e da graduação, estão disponíveis e podem ser consultados na biblioteca da Escola de Teatro.

        Como ensino-pesquisa-extensão se faz necessário pensar o Teatro de Bonecos integrante de um campo maior que se constitui como Teatro de Animação, ou Teatro de Formas Animadas, forma contemporânea, que, segundo a pesquisadora e Professora Ana Maria Amaral, uma grande referência no Brasil do estudo dessa forma cênica, configura-se a partir dos anos 80. Esse pensar contribuirá para a pesquisa e a mudança do próprio modo de ensinar uma prática teatral onde estão incluídos, além dos bonecos, objetos, formas, luzes, máscaras, teatro de sombras, em multi-variadas formas de performances e manipulação, e articulação com a presença visível ou invisível do ator em cena.

                  A prática mais contemporânea, com sua potência em multiplicidades estéticas, poderá inspirar os artistas cênicos do teatro e da dança em suas performances e, também, muito rapidamente se aproximar do universo lúdico e poético para a iniciação teatral infantil, uma brincadeira levada a sério pelo educador que percebe a profundidade do seu alcance. Essa forma cênica ocupa um lugar privilegiado para gerar a empatia lúdica com as crianças e com a criança dentro do adulto em qualquer idade. Poesia, magia e encantamento que só a pesquisa e o trabalho sério poderão facultar na dimensão do rigor necessário às práticas tanto de educadores quanto de artistas da cena.

                  Além disto, por suas origens e articulações históricas, podemos reconhecer, ampliar e estudar essa forma cênica no Brasil, em suas tradições européias, africanas, indígenas e orientais, incluso nessas tradições a poesia e a cultura da infância com todo o repertório das estórias, das brincadeiras e dos brinquedos tradicionais. Seu campo é tão complexo em suas origens e articulações, confundindo-se com toda a história do próprio Teatro.

                  Finalmente, enfatizo a importância desse Teatro para a Educação, assinalando  aqui sua característica principal, a função dominante de “anteparo”, inerente a todas as técnicas do Teatro de Animação, função produtiva, projetiva e desinibidora que pode rapidamente deflagrar pensamento e imaginação. Função eficaz, exercida de forma natural pelas crianças nas suas brincadeiras, na complexa percepção de si mesmo em interação com o mundo que as cerca. O ato de perceber implica numa seleção, numa escolha de foco, com maior ou menor grau de consciência do sujeito, mas na percepção está a base do pensamento crítico-criativo. Sair da zona de automação, flexibilizar registros, avançar para o novo. Romper a lei do menor esforço, fazer teatro como educação da percepção, como pensamento complexo, crítico-criativo. Somos muito mais passivos frente à oferta que sacia nossa fome de imagens na atualidade. Compreender como as imagens são produzidas, seus sistemas de pensamento, desde a infância, produzindo-as. Esse o exercício da imaginação como função ativa, função estética criadora pouco solicitada na contemporaneidade e na escola de um modo geral, tão necessária à formação de cidadãos.

          Bom pensar e repensar esse papel e lugar do artista e do professor de teatro para conduzir melhor uma proposta de formação, sem esquecer da fundamental pergunta: que pensamentos governam minhas práticas? Pois o Teatro nos aproxima do outro por um aprendizado de solidariedade e contágio, Teatro e Teatro na Educação pode configurar um modo novo de estar junto. Compreender, fazer perguntas, transformar, sondar o mistério, sonhar, compartilhar ou suportar o que não podemos compreender sozinhos pela saga de personagens comuns ou extraordinários, humanos ou inumanos, animais, concretos ou abstratos, todas as infinitas vozes que num Teatro de Formas Animadas pela via da poesia poderão falar.

 

          Sonia Rangel

Artista plástica, atriz

Mestre em Ates Visuais, Doutora em Artes Cênicas

Professora da Escola de Teatro e da Escola de Belas Artes da UFBA

 

 

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Todos os comentários desse artigo:
TEATRO DE BONECOS NA EDUCAÇÃO

  • Paulo Gurgel mailto

    Seg 11 Mai 2009 17:31

    Sonia,

    Precisamos conversar. Sou seu colega da FACED e trabalho com Educação Infantil. Tuda a ver e a sentir com o seu trabalho de arte-educação.

  • Gilberto Avelar mailto

    Ter 05 Mai 2009 16:58

    Olá Sônia! Sou Arte-educador, e achei muito legal seu texto e as ações, sucesso !

  • Fatima Romani mailto

    Sáb 25 Abr 2009 05:27

    Ex participante do Núcleo mde Plástica e Cena, em seus primórdios, no ano de 97, e aluna de Ana Maria Amaral, também em 97, mas ´fora da Escola de Teatro da Ufba, de que forma poderia participar desse projeto?